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 A Dama de Gelo || Capítulo 17

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AutorMensagem
Yannikson
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Idade : 23
Cidade : Charqueadas

MensagemAssunto: A Dama de Gelo || Capítulo 17   14.08.13 21:41

No último capítulo de A Dama de Gelo: E descendo as escadas ouvi A Dama de Gelo falar algo, mas só assenti com a cabeça. Era hora de parar de temer Juan Díaz, pelo menos uma vez na vida!”.


Meu relógio prata era condizente com as nuvens ás 16h20. O sol, que no início do dia se mostrou extrovertido e sorridente, agora não passava de um tímido relance de cor laranja se escondendo por entre nuvens escuras de algodão.


Apesar do céu bonito, o cemitério permanecia triste. Na entrada alguns túmulos esbranquiçados davam assento a algumas flores secas e incolores. O espaço era grande com as estruturas proporcionais ao seu tamanho, porém qualquer visitante que ali estivesse se perdia facilmente entre uma fileira e outra de cadáveres.


Nem todos deviam ter sido más pessoas para partir desta para melhor (?), mas quem seria eu para julgá-las? Perdi meus pais, perdi um filho antes mesmo de dar um nome pra ele e ainda por cima havia tentado me matar na noite seguinte ao ocorrido. Todas estas relações diretas ou indiretas que eu tive com a morte tinham que ser excluídas da minha cabeça, deviam que ser deixadas ali, no cemitério. Porque eu sabia que toda vez que eu tentasse me reerguer estes fatos tristes iriam me perseguir, iriam me atrapalhar. E iriam me fazer chegar até aqui, de uma forma ou de outra.
 
Grey Room / Quarto Cinza (Damien Rice)
 
Well I've been here before / Bem, eu já estive aqui antes
I've sat on the floor/ Sentei no chão
In a grey grey room / Em uma sala cinza, cinza
Where I stay in all day / Onde passo o dia todo
I don't eat, but I play / Não como, mas brinco
With this grey grey food / Com essa comida cinza, cinza
Desole, If someone is prayin', Then I might break out / Desolação, Se alguém estiver rezando, Então posso fugir
Desole, Even if I scream, I can't scream that loud / Desolação, Mesmo se eu gritar, Não consigo gritar tão alto
So I'm all alone again / Estou totalmente sozinho de novo
Crawling back home again / Rastejando de volta para casa
Just stuck by the phone again / Empacado ao lado do telefone de novo
 
Aproximei-me do local onde meu filho havia sido enterrado e lembrei-me da barriga arredondada de Izabel, do velório do MEU filho e do gelo que cobria o cemitério naquele início de inverno. Um mês havia passado, mas as fortes recordações eram os motivos de eu estar ali, querendo superar. Querendo mudar e tentando manter a carcaça de um cara frio e sem sentimentos, como sempre preferi parecer.


Henrique Lopes Garcia


Estes dados foram atribuídos posteriormente à minha breve internação no hospital, tenho certeza. A família dela nunca gostou de mim, não tinha porque se importar com um cara que só havia transformado a vida da menininha deles em um inferno.
 
A verdade é que eu não queria o mal da Iza. A pressão por parte do meu emprego, das responsabilidades e principalmente das perdas que eu já tive me deixavam irritado. Ainda me deixam na verdade, mas ao menos a Dama de Gelo está me ajudando neste sentido. Seus olhos intactos parecem absorver a minha tristeza e me permitindo ter vontade de descobrir um universo ainda desconhecido.
 
- Eu preciso tentar. – desabafei inutilmente.
 
Meu garotão nasceu grande, 3,67kg. Certamente seria tão bonito quanto a tua mãe, tão forte quanto teu avô e tão astuto quanto teus avós maternos. Mesmo sabendo que terias pouquíssimas semelhanças comigo, estava disposto a te amar mais do que o previsto. Só lamento ter refletido sobre isto tarde demais, mas mesmo assim acredito que esta minha visita seja válida. Se Deus, ou qualquer outra criatura divina quiser, tu deves saber que eu gostava da ideia de ser pai mesmo que não estivesse presente, mesmo que não te tocasse no ventre da tua mãe.
 
Larguei um cravo que havia trazido para colocar sobre o túmulo. Ele era homem demais para ganhar flores ou rosas, suficientemente importante pra ter minha falsidade. Era só um jovem cravo branco, mas havia sido comprado pensado naquele momento. Como se fosse uma das várias reconciliações que teríamos durante nossas vidas, como foi com meu pai.
 
Ouvi alguns passos se aproximarem e a esta altura do campeonato espanhol meus olhos já estavam mareados. Cara, que Poxa é esta de sentimento que te faz sentir deprimido e tranquilo ao mesmo tempo?
 
Os cabelos de Izabel estavam esvoaçantes e encaracolados. Seu vestido era longo como os que sempre gostava de usar e seus olhos castanho-claro me fitaram lamentando.
 
- Desculpe, eu não sabia que tu estarias por aqui.
 
- É tão ruim assim me ver? – e limpei o nariz que estava com uma pequena quantia de saliência transparente escorrendo.
 
- Presumo que tenha recordado da data de morte do nosso filho.
 
- Um convite à missa me fez chegar até aqui, para ser mais preciso.
 
- Minha família exagerou.
 
- Por que tu concordaste com esta loucura?
 
- Não acho uma loucura homenagear quem amamos. Ou quem eu amava, tanto faz...
Voltada para o túmulo e de costas para mim, Iza se agachou. Havia cortado o cabelo na altura dos ombros, feito uma franja. Seus lábios pareciam mais carnudos do que o normal e sua pele estava ressecada pelo frio. Sua frieza comigo, entretanto, permanecia igual ao dia em que fui conversar com ela no hospital depois do ocorrido.
 
- Não vai responder nada? – ela foi me atropelando, como era acostumada a fazer em todas nossas brigas.
 
- Qualquer coisa que eu diga não vai te trazer de volta e muito menos o pequeno. Por que deu a ele o nome de Henrique? Martín, Miguel, Sebastian ou Gonzalo seria muito mais interessante.
 
- Quando eu te implorei por um nome tu me ignorou e fez como se eu não fizesse parte da tua vida! Tu tens noção do que isto significa para uma garota que saiu da casa dos pais pra ficar contigo e que sequer atingiu a maior idade ainda?
 
Permaneci em silêncio. Suas palavras eram jogadas abruptamente sobre meu rosto e o estavam queimando, devo declarar. Mesmo assim ela conseguia ser afável quando via que a patada havia sido grande demais.
 
- Fico feliz por te ver aqui. É sinal que já saiu do hospital e que, espero eu, não corra mais risco de se matar.
 
- Podes continuar jogando suas mágoas na minha cara, eu não me importo.
 
- Dramático. – e se pôs de pé, voltada pra mim.
 
Ajeitou a jaqueta em mim, colocou suas mãos quentes nos meus braços, esquentando-os. Seu olhar esperançoso sobre a situação era o que mais me incomodava. Como ela podia estar tão bem depois de tudo o que aconteceu?
 
- Tu me ensinou a lidar com a vida Juan! – e suas mãos um tanto ásperas tocaram o meu rosto.
 
- Eu te tirei tudo de melhor que tu poderia ter...
 
- Minha família é rude, fazem eventos pra provocar, pra se promover – interrompeu. – Mas de fato eles estão tocados com todo o ocorrido. Eu me tornei peça do jogo deles e vai ser assim até eu sair de lá na semana que vem.... O nome do bebê e a missa não foram por mal, somente uma forma de recordar esta coisa querida que me chutou durantes uns meses e agora se foi para um lugar cheio de luz como ele merecia.
 
Uma lágrima escorreu dos olhos dela e rapidamente Izabel tratou de tirar suas mãos das minhas. Seu otimismo era genial e suas variações de humor também.
 
- Tu acha que nós poderíamos voltar?
 
- Voltar o quê, voltar a que ponto? Vivemos tudo que tínhamos e podes ter certeza que foi a experiência mais linda que eu já tive na minha vida.
Yeah, well I've been here before / É, eu já estive aqui antes
Sat on a floor, In a grey grey mood / Sentei no chão, Com um humor cinza, cinza
Where I stay up all night / Onde passo a noite toda acordado
And all that I write is a grey grey tune / E tudo o que escrevo é uma melodia cinza, cinza
So pray for me child / Então reze por mim, criança
Just for a while, And I might break out yeah / Só um pouquinho, E eu posso fugir, é
Pray for me child, Even a smile would do for now / Reze por mim, criança, Até um sorriso basta agora
So I'm all alone again / Estou totalmente sozinho de novo
Crawling back home again / Rastejando de volta para casa
Just stuck by the phone again / Empacado ao lado do telefone de novo
 
Fora da minha razão eu busquei me aproximar dela, quase como a tentativa de um beijo. Eu gostava dela, sentia que poderíamos estar juntos se nada daquilo tivesse acontecido. Dei um passo pra traz e preferi não falar nada. Seus argumentos eram sempre muito fortes e eu nunca conseguia converter a situação, a não ser pelo silêncio.
 
- Como estão indo as terapias?
 
Ela sabia?
 
- Como tu sabe?
 
- Eu sabia que tu ia sofrer mais que eu, apesar de não parecer. Quando fiquei sabendo da tua internação fiquei tranquila pois sabia que algo de bom tu irias tirar... E aqui está! – e me ofereceu um singelo sorriso amarelado.
 
- Estou me saindo bem, a psicóloga é boa. – e lembrei de Lisppet Morales no meio a todas aquelas emoções. Será que eu estava fazendo o correto, será que havia dito tudo?
 
- Tu és uma ótima pessoa e nosso filho seria assim também. Preserve!
 
Logo após suas palavras pude ouvir um berro vindo lá da frente.
 
“Hey Iza, temos que ir filha!”
 
- Tu já vai?
 
- Meu pai não é nada paciente, tu sabes... Estamos aqui há mais de 20 minutos e eu realmente preciso ir. Espero que fique bem.
 
Com uns 5 metros de distância lancei uma última pergunta à Iza.
 
- Como tu podes vir pra cá tão tranquila?
 
- Este lugar me traz boas recordações, apesar de tristes. É isto que temos que guardar, pelo menos é o que eu acho!
 
E sumiu abraçada ao pai. Sem entender o porquê de ter a encontrado naquele dia, naquela hora e naquela circunstância, me agachei tal como ela havia feito para se sentir mais próxima do túmulo e confesso que, ver a parte mais alta na horizontal é mais interessante, pois flagra de fundo um monte de flores, rosas e cravos existentes em cima dos outros túmulos. O plano de fundo na perspectiva era de um visual atraente e a minha sensação depois de lidar com toda esta situação era relativamente passiva.
 
- Viu como tua mãe é bonita? Posso não ter nenhuma qualidade que preste, mas bom gosto o pai tem!
 
E os portões do cemitério se depararam com uma imagem um tanto diferente da que havia recepcionado. Uns 17kg saíram das minhas costas (gosto de números quebrados) e eu devia isto a alguém. À moça dos olhos quentes ou a mulher das mãos frias?
 
Have I still got you to be my open door,
Eu ainda tenho você para ser a minha porta aberta?”
Have I still got you to be my sandy shore,
“Eu ainda tenho você para ser o meu porto arenoso?”
Have I still got you to cross my bridge in this storm,
Eu ainda tenho você para atravessar a minha ponte nesta tempestade?”
Have I still got you to keep me warm,

Eu ainda tenho você para me manter quente?”

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Yannikson Pereira



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MensagemAssunto: Re: A Dama de Gelo || Capítulo 17   24.08.13 22:56

Parabéns pelo capitulo,amo a Grey Room !
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Yannikson
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Idade : 23
Cidade : Charqueadas

MensagemAssunto: Re: A Dama de Gelo || Capítulo 17   25.08.13 0:08

Obrigado Matheus, continue acompanhando que vem muito mais músicas bacanas por aí Smile

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Yannikson Pereira



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MensagemAssunto: Re: A Dama de Gelo || Capítulo 17   

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A Dama de Gelo || Capítulo 17
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